Algum-lugar-que-não-seja-São-Paulo, 31 de julho de 2021
Olá, meu nome é Fulano, tenho 16 anos e sou natural de Algum-lugar-que-não-seja-São-Paulo. Jogo basquete em um clube da minha cidade desde os 9 anos e me apaixonei pelo esporte desde o primeiro drible.
Meu técnico, o Ciclano, trabalha com base em Algum-lugar-que-não-seja-São-Paulo por quase 20 anos e sempre acreditou no meu potencial (talvez mais que eu mesmo). Treinamos praticamente todos os dias e, como resultado disso, fui campeão Sub-12/13/14 e 15, sendo inclusive o melhor jogador do campeonato nos últimos dois anos.
Mas tudo isso veio com alguns sacrifícios. Enquanto meus amigos iam a festas, dormiam até tarde nos finais de semana, comiam tudo o que queriam e descansavam nas férias, a minha rotina era um pouco diferente.
Eu vou para escola pela manhã e, após as aulas, almoço e já vou direto para o clube. Treino com minha categoria pela tarde, descanso um pouco e já sigo na categoria de cima. No final do período, faço alguns treinos específicos com o técnico Ciclano e volto para casa. Chegando em casa, faço um lanche, boto as tarefas da escola em dia, janto e capoto na cama.
Nos finais de semana, jogo pelas categorias que treinei durante a semana e, após os jogos, faço alguns treinos de forma individual (arremesso, drible…).
Nas férias escolares, aproveito para participar de torneios regionais pelo Brasil. Jogo o sul-americano de Novo Hamburgo, Copa sul-americana, CBC e, quando meus pais conseguem, me inscrevo em clínicas (Brasil ou exterior).
Dada essa rotina, meu relacionamento com os amigos e familiares acabam sendo prejudicados. Eles falam “poxa, você não sai mais com a gente”, “larga esse basquete, não dá futuro”, “mas você ganha alguma coisa já?”. Isso sem falar o quanto meus pais devem ouvir do restante da família, pois vira e mexe, me ausento de aniversários e outras datas comemorativas.
Minha vida é o basquete, eu amo esse esporte, dedico uma parte importante e considerável do meu tempo e energia em seu favor, com o sonho de me tornar um profissional.
Bom, meu nome não estava na lista de convocados da seleção brasileira Sub-16. Eu e Ciclano fizemos tudo que nos cabia (e mais), porém não fomos sequer considerados. O que estou fazendo de errado? Será que todo esse esforço vale a pena? Estou sendo muito inocente em achar que apenas com trabalho duro teria alguma recompensa? Não me sinto preparado o suficiente para ir para São Paulo sozinho, e nem meus pais tem como me manter por lá.
Enfim, segunda-feira tenho treino novamente. Talvez o Ciclano saiba me explicar o que aconteceu e me dar alguma orientação. Quem sabe a comissão técnica da seleção entrou em contato com meu time para nos passar alguns pontos de melhora no meu jogo. Ou será que nem sabem que eu existo?
